O
Puro Sangue Árabe em Portugal
(Texto publicado no Stud Book Português do Puro Sangue Árabe, Volume I )
Com
as mais antigas fronteiras da Europa, isolado como uma ilha no extremo ocidental
do continente, varanda debruçada sobre o Atlântico, Portugal foi desde o seu
início um país de equitadores onde o cavalo foi sempre considerado um aliado e
um amigo.
Com
uma tão grande tradição, não admira que os portugueses tenham desde sempre
venerado o Puro Sangue Árabe, com o misticismo da sua origem, a magia das suas
formas, a vivacidade, nobreza, inteligência e bondade do seu carácter, e com a
sua influencia tão benéfica sobre todas as raças.
Tendo
sempre considerado que o Árabe tem outras qualidades além da beleza, que pode
e deve ser utilizado como qualquer outro cavalo por não lhe ser inferior, e
atendendo a que o mais bonito dos cavalos sem aptidão funcional serve apenas
para entretimento, os responsáveis pela raça tudo fizeram para preservar as
qualidades estéticas, morais e atléticas da mais antiga e prodigiosa das raças
conhecidas.
Esta
preocupação, que foi responsável pela grande qualidade da criação de
Cavalos Árabes em Portugal, obrigou as autoridades oficiais a, desde 1934,
durante mais de meio século, procederem a uma selecção dos reprodutores
extremamente severa e sem precedentes.
Assim,
para provar o valor real dos animais, a Coudelaria Nacional Portuguesa fazia uma
primeira selecção dos poldros e poldras aos 3 anos, e dos garanhões aos 6
anos, só admitindo como reprodutores os cavalos que obtivessem uma nota
satisfatória na arvore genealógica, no modelo, nos andamentos e nas provas
funcionais. Estas, na sua fase mais dura, eram constituídas por :
- um
cross de 3.000 m com 15 obstáculos até uma altura máxima de 1,20 m, a
percorrer à velocidade mínima de 600 m/minuto ;
- uma corrida de 2.500 m, à velocidade mínima de 700
m/minuto ;
- uma prova de salto de obstáculos, com 12 esforços, a uma
altura máxima de 1,20 m
- uma prova de estrada de 70 km, à velocidade de 20 km/hora
;
- uma prova de ensino, semelhante ás utilizadas em CCE, para
melhor avaliar as qualidades mentais e motoras do animal ;
- um exame clínico pormenorizado.
Evidentemente,
os animais sujeitos à estas provas eram previamente treinados para poderem
fornecer o grande esforço exigido.
Esta
selecção, que pensamos ser uma das mais duras realizadas no mundo, fez do Árabe
português um animal de excepção, um cavalo robusto e belo que guardou todas
as qualidades morais e funcionais de outrora.
Este
facto levou os actuais responsáveis da raça a pensarem em reutilizar este tipo
de selecção, com provas fisicamente um pouco menos violentas mas mais severas
em relação ao tipo, esforço que contribuirá certamente para o melhoramento
da raça.
Não
sabemos ao certo quando foi introduzido na Península Ibérica o Cavalo Árabe,
mas parece não haver dúvida que o mais tardar em 711, a invasão islâmica
trouxe para terras hoje portuguesas numerosos cavalos orientais, que deixaram
certamente grandes marcas, dado que a presença árabe no extremo sul de
Portugal durou até ao século XIII (1248).
No
século XVI, a pioneira expansão Lusitana no Mundo levou os Portugueses a
dominarem muitos mercados orientais, trazendo para o nosso país o que de mais
raro neles existia. Porque não Cavalos Árabes ? Não fala o historiador Damião
de Góis (1502-1574) dos presentes enviados por D. Manuel I ao Papa Leão X, que
juntamente com especiarias, jóias « que de memória de homem nunca se
vira » e elefantes, contavam « uma onça de caça sobre uma manta
bordada a ouro que cobria a garupa de um magnifico cavalo persa » ? E para
confirmar que era hábito o Rei de Portugal receber como presentes cavalos
orientais, não fala o mesmo escritor de um esplêndido Cavalo Persa oferecido
pelo Rei de Ormuz ao monarca português ?
A
partir do século XVIII os cavalos orientais distinguem-se particularmente. Na
Grã-Bretanha eles dão origem ao Puro Sangue Inglês, na Rússia ao Orloff, e,
no século XIX, em França, ao Anglo Árabe. Neste país, a campanha de Napoleão
no Egipto acentuou aquela tendência, trazendo para a corte francesa a moda do
Cavalo Árabe, a montada preferida do Imperador. E assim, quase toda a Europa
foi invadida por garanhões orientais, moda que não deixou de influenciar
Portugal, como documentam as importações feitas do Egipto e de Constantinopla
em 1812, 1861, 1867, 1872 e 1876.
Destas
importações, não há descendência pura conhecida, e para a história do PSA
em Portugal, só as aquisições feitas em 1902 e 1903 em Beirute,
Constantinopla e Djeddah, têm interesse por
a sua descendência ainda hoje estar representada. Foram importados naquela
ocasião 3 machos (Fehran, Dehiman e Nemyr) e 4 fêmeas (Saada, Nazly, Fhara I e
Fhara II). A Saada trazia no ventre o Pakir, tendo a excelente descendência
deste último, bem como a de sua mãe, a da Nazly e a do Fehran chegado aos
nossos dias em raça pura. As extraordinárias Nazly e Saada, da casa de Beih
Abdel Melek, podem considerar-se as matriarcas das mais antigas linhas árabes
portuguesas.
Em
1921 e 1935 foram importados vários animais da Grã-Bretanha, entre os quais os
óptimos cavalos Fursan e Silfire, de Crabbet Park, a famosa coudelaria fundada
por Lady Blunt, neta de Lord Byron.
Em
1932, fez-se a primeira importação de animais do grande criador que foi o
Duque de Verágua, descendente de Cristóvão Colombo. Esta compra foi
completada em 1961 pela importação da preciosa éguada de António Egea
Delgado, também Verágua.
Muitas
outras grandes linhas foram depois introduzidas em Portugal, como as de Comet (Abu Afas e Carmen por Tripolys), de Wielki-Szlem (Ofir e
Elegantka por Bakszysz), de Elokuencja
(Rozmaryn e Ela por Miecznic), de Flipper
(Gosse du Bearn e Fleur d’Avril por Meko), de Djerba Oua (Dragon e Dorée II por Kriss II), de Piruet
(Probat e Pieczec por Palas), de Shazamah
(Shah Gold e Bazama por Al Marh Radames), de Golden
Sceptre (Mikonos e Shazala por The
Shah), de Magic Count (Mc Coys Count
e Regla’s Rose Flame por Indian Flame II), de Nil (Sid Abouhom e Malaka por Kheir), de Nitochka (Naseem e Tarazca por Enwer Bey), de Pomeranets (Priboj e Mammona por Offir), de Klinika (Korej e Naturalistika por Naseem), de Jacyo, de El Shakland, de
Shaker El Masri, etc.
Para
evitar qualquer erro, sempre possível por, como no resto do mundo, o cavalo árabe
ter sido muito utilizado para melhorar raças locais, nenhum animal existente em
Portugal antes de 1902 foi inscrito no Stud Book, e só os animais importados
posteriormente e seus produtos foram admitidos como raça pura.
Este
rigor, a exactidão dos Registos Oficiais das Coudelarias Nacionais e da APCRS,
e a hemotipificação obrigatória, são uma garantia indiscutível da pureza do
Árabe nacional. Esta pureza, junta à severidade da selecção dos reprodutores
não só esteticamente perfeitos mas também verdadeiramente funcionais, física
e moralmente, fazem do Árabe Português um dos mais solicitados do mundo, e
certamente também um dos melhores.
Provam-no
animais como os campeões Cejuba El Berana, Juxito, Ohxul Ben Biarritz, Reject
Ibn Biarritz, Aicha Ibn Biarritz, Qkyjul Ibn Biarritz, Diniz Met Biarritz, etc,
e os muitos títulos obtidos por PSA portugueses em modelo e andamentos e em
provas desportivas : Campeão dos Campeões no México, Campeão dos Campeões
no Brasil, Campeão dos Campeões em Espanha, seis vezes Campeões da Europa,
cinco vezes Vice-Campeões da Europa, duas vezes quintos em Campeonatos do
Mundo, e em França varias vezes os maiores vencedores de corridas para PSA.
Neste país, os filhos das éguas Oxylla Ben Biarritz e Nacayhr Ben Biarritz,
Dunixi e Blaise (garanhões do Estado Francês), têm produzido de forma
excepcional, fundando certamente uma das mais ilustres linhas de cavalos de
corrida.
Os
PSA portugueses, muitas vezes favoritos em Provas de Fundo, também revelam a
sua excepcional coragem e mobilidade na Corrida de Toiros à Portuguesa, onde
encontramos « estrelas » como Gramático, Imoral, Jasmim, Valoroso,
Xistre, etc.
É
importante notar que muitos Puro Sangue Árabe com origem portuguesa
participaram com o maior êxito em provas
para cavalos de todas as raças, tendo obtido, entre outros, os
seguintes resultados em disciplinas olímpicas (onde raramente encontramos o
Cavalo Árabe) :
Em
CSO :
- Finalista do « Cycle Classique », cavalos de 4
anos, Fontainebleau, França, 1983
- 9º maior ganhador de França, cavalos de 6 anos, 1985.
Em
Ensino : - 2º no Grande Prémio
de Paris, França, 1981
- 3º no Concurso de Madrid, Espanha, 1984
- Campeão da classe internacional, Portugal, 1986
- Vencedor do Top Equestre, Portugal, 1986 e 1987
- Pré-seleccionado para os Jogos Olímpicos (onde não chegou
a ir por ter morrido).
Em
CCE :
- 3º
no Campeonato de França de Exterior, AA, Pau, França, 1981 (em que participou com uma autorização especial por ser um PSA)
- 2º no CCE da Golegã, Portugal, 1983
- 1º no CCE da Golegã, Portugal, 1984
- 1º da CCE de Mafra, Portugal. 1984
- 1º do CCE de Mafra, Portugal, 1985
Assim,
como os povos de outrora, que durante séculos souberam preservar as fantásticas
qualidades do Puro Sangue Árabe, Portugal é um dos poucos países que
souberam manter na raça os dons excepcionais de beleza, de carácter e
de eficácia funcional.
Manuel
H.
D. Heleno
Presidente da Direcção do Stud Book Português do PSA
