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Revista Equitação, nº 29, de Outubro / Novembro 2000,
entrevista
de Eduardo de Carvalho, Editor, a Manuel Heleno (por economia de espaço
eliminámos as fotografias):
Coudelaria
Manuel Heleno
"Diplomata,
empresário, cavaleiro e criador, Dr. Manuel Heleno é uma figura reconhecida no
meio equestre nacional e internacional, tendo presidido a diversas
organizações, efectuou um percurso multifacetado coroado de êxitos nas
diversas actividades, salientando-se o seu espírito empreendedor que lhe
permitiu realizar a primeira Corrida de Toiros à Portuguesa em França, a Festa
de Homenagem a Fernando Sommer d'Andrade, vários campeonatos de Modelo e
Andamentos e os célebres leilões de cavalos na Sociedade Hípica Portuguesa.
Começou por ser cavaleiro e posteriormente, fundou uma coudelaria.
Gostaríamos que nos descrevesse este percurso.
A minha atracção pelos cavalos e tudo o que os envolve começou muito
cedo. Aos 4 ou 5 anos. Desde então, sempre montei, como o tinham feito os meus
avós. Comecei pelo concurso hípico. Corri em trote atrelado onde ganhei umas
vinte e tal corridas consecutivas. Mas a minha verdadeira felicidade surgiu
quando trabalhei com o Mestre Nuno de Oliveira. Desde então a minha disciplina
preferida passou a ser o Ensino de tradição francesa. Eu e o meu cavalo
trabalhamos ao som da música, esquecemos tudo o que nos envolve, pertencemos a
outro mundo. Evoluímos na mais tranquila e descontraída concentração. Tenho
a impressão de pedir o ladear, a passage, o piaffer ou as piruetas, no momento
exacto em que o cavalo tem vontade de as realizar. Obter um exercício de Alta
Escola nestas condições, por uma aparente transmissão de pensamento e não
por um ataque de perna ou de mão, tem para mim sabor de ideal.
Este entendimento entre mim e o animal, esta cumplicidade, levou-me à
verdadeira paixão pelos cavalos. E com ela veio o desejo de os poder seguir
desde o nascimento. Foi assim que, quando a oportunidade se apresentou, fundei
uma coudelaria.
Quer
contar-nos brevemente a história dessa fundação ?
A notável Coudelaria de Guilherme Correia Gyão foi salva dos vandalismos que
seguiram o 25 de Abril por ter sido vendida para Espanha antes daquele
acontecimento.
Em 1977 o novo proprietário pediu-me ajuda e com esse fim instalou a Coudelaria
em França, onde eu estava em funções, como Cônsul de Portugal.
Em 24 de Março de 1978, associei-me com ele e fundei e registei oficialmente,
em França, a “Société Civile Haras Biarritz”, que passei a dirigir.
Enfim, em 28 de Junho de 1979, por acto notarial, comprei a totalidade das
partes da referida Sociedade.
A sua Coudelaria é composta por animais Puro Sangue Árabe, Sela Francês
e Cavalo Português de Desporto. O que é que o levou a optar por estas raças ?
O núcleo de cavalos Árabes reunidos na Coudelaria Gyão era
incontestavelmente um dos melhores existentes a nível mundial. Reunia animais
das duas melhores Coudelarias da época: a do Duque de Verágua (descendente de
Cristóvão Colombo) e a de Crabbet Park (fundada por Lady Blunt, neta de Lord
Byron).
Foi a grande qualidade dos animais existentes que me decidiu a comprar aquela
éguada árabe, para servir de base à minha Coudelaria.
Dado que o Puro Sangue Árabe é o fundador de muitas raças (o Puro Sangue
Inglês, por exemplo), mas também o melhorador de todas as outras, depois foi
fácil ! Introduzi o sangue Árabe
no Sela Francês ou no Puro Sangue Inglês e o resultado desportivo ultrapassou
todas as expectativas.
Do Haras de Biarritz-Coudelaria Manuel Heleno, saíram diversos animais
que viriam a tornar-se campeões ou conquistaram lugares de destaque nas
diversas disciplinas. Quais foram os êxitos de maior relevo a nível nacional e
internacional ?
No início da minha Coudelaria os únicos animais adultos eram Puro
Sangue Árabes. Comecei a inscreve-los nas principais competições de França
para Árabes, que ganharam quase sistematicamente. Tentámos então o nível
internacional. O sucesso manteve-se. Em Ensino, Obstáculos e Modelo e
Andamentos, em Paris, ganhámos 6 Campeonatos de Europa, obtivemos 5
títulos de Vice Campeão de Europa e 2 quintos lugares em Campeonatos do Mundo.
Em corridas profissionais, em toda a França, a tentativa também teve êxito,
dado que em 2 anos consecutivos tive o melhor poldro do ano e, logo a seguir, a
melhor poldra.
Incitado pelo entusiasmo que a imprensa internacional manifestou pelos animais
da Coudelaria, decidi tentar algo mais difícil: competir com Puro Sangues
Árabes em provas abertas a todas as raças. E aí também se conseguiram
vários triunfos de relevo, entre os quais um 2º lugar no Grande Prémio de
Paris de Ensino, um 3º no Campeonato de França de Exterior, o vencedor do CCE
em Mafra, uns duzentos primeiros prémios (muitos deles em França), o
Vice-campeão dos Campeões de todas as classes e os vencedores das Taças de
Portugal em Ensino (em quase todos os níveis e durante vários anos), etc.
Isto, falando só dos cavalos montados ou apresentados pelo meu filho ou por
mim.
Entretanto, os primeiros poldros oriundos dos meus cruzamentos do Puro Sangue
Árabe com o Sela Francês vieram confirmar as minhas esperanças: em Concurso
Hípico, tivemos 3 vezes o maior ganhador de Espanha (Athos Biarritz) e o
nono melhor 6 anos de França (Dunixi), enquanto Feby Boy Biarritz
faz no seu primeiro ano de concursos 14 percursos e 8 barragens sem faltas, 8
percursos com 4 pontos e zero percursos com mais de 4 pontos; em Ensino, Qkarahl
Biarritz ganha 23 provas consecutivas e é Campeão de Paris dos Anglo-árabes,
Elcyna Of Biarritz é Campeã dos Campeões e Oxhul Ben Biarritz é
pré-seleccionado para os JO de Barcelona; em CCE, Lizst Biarritz mostra grande
qualidade e integra a Equipa Portuguesa.
Actualmente, os poldros que estão a começar continuam a mostrar grande
qualidade. O jovem Qkupidus Biarritz, propriedade do Sr. José Manuel Soares da
Costa, o ano passado, aos 5 anos ganhou 11 primeiros prémios em 24 provas. O 6
anos Qkelly Biarritz, propriedade do jovem cavaleiro Sr. Daniel Jorge Cardoso
dos Santos, acumula os sucessos em Concurso Hípico, tendo em 99 feito 12
percursos limpos em 18 provas, e este ano 15 sem faltas em 19 competições. Em
Concurso Completo, as 5 anos Rakel Of Biarritz e Rebeka Biarritz classificam-se
regularmente estando a ter um grande sucesso na Grã-bretanha, país do Concurso
Completo em que é muito difícil triunfar. A Rakel, que acumula
classificações, até já está seleccionada para uma Final Inglesa dos 5 anos,
o que é uma muito bonita performance.
Quais
são as repercussões desse sucesso na projecção da Coudelaria a nível
internacional ?
É evidente que os quase 400 primeiros prémios ganhos pelos cavalos do
meu ferro em França, Espanha e Portugal e os 60 títulos de Campeão Europeu,
Nacional ou Regional obtidos, fazem que os meus produtos são procurados a nível
internacional, tendo exportado aproximadamente 60 animais.
O Estado Francês tem 2 garanhões (Blaise e Dunixi) filhos de éguas minhas, nas duas principais Coudelarias Nacionais Francesas: o Haras National
du Pin e o Haras National de Pompadour. O Estado Português comprou-me o Diniz
Met Biarritz (neto do várias vezes Campeão do Mundo Comet) para garanhão da
Coudelaria Nacional da Fonte Boa.
Há dias um cavaleiro Inglês de CCE, que viu 3 animais meus em Inglaterra,
mostrou desejo de me comprar toda a minha produção de 3 anos !
O reconhecido valor dos cavalos oriundos da Coudelaria deve-se
essencialmente a que factores ?
Todas as minhas fêmeas, sem excepção, têm a mesma origem. Se recuarmos
dumas 13 gerações pelo lado materno, temos a surpresa de verificar que todas
as minhas éguas têm a mesma avó, a campeã Saada, nascida no
deserto há mais de um século. Este facto é importantíssimo porque dá um
enorme valor genético à Coudelaria e porque cria uma homogeneidade rara na
descendência, qualidades impossíveis de obter quando há fêmeas de várias
origens.
Também, as muitas dezenas de anos de existência desta Coudelaria, a severa
selecção praticada ao longo de todas essas décadas, a base inicial
constituída por animais Puro Sangue Árabe de grande valor e a selecção dos
notáveis garanhões Sela Francês ou Puro Sangue Inglês que beneficiaram as
éguas, são verdades importantes cujo conjunto constitui talvez o segredo da
qualidade existente.
Quais os critérios essenciais que adoptou
para a selecção dos padriadores e quais os principais ?
Sempre procurei adquirir garanhões fisicamente perfeitos, em que a extensão
dos movimentos, o bom carácter, a nobreza e o “coração” são condições
determinantes para a minha escolha. A origem também é importantíssima e exijo
que seja composta de animais de excepção há várias gerações. Nunca me
atraiu ter um poldro filho de um grande campeão se os pais e avós forem
desconhecidos. O que me interessa é aquele padriador em que todos os
ascendentes foram bons cavalos, pois assim tenho quase a certeza que os seus
descendentes também o serão.
E é assim que, já há muito que não existem maus cavalos na Coudelaria ! Só
há os bons, e os muito bons !
As nossas origens de desporto falam por si. Os padriadores que beneficiaram as
minhas éguas têm nas suas origens, além dos 5 Puro Sangue Inglês chefes de
raça do Sela Francês (Orange Peel, Furioso, Ultimate, Fra Diavolo e Rantzau),
os monumentos da criação cavalar que são os garanhões Monceau, Sicambre,
Exbury, Herbager, Nearco, Court Martial, Tornado, Domspatz, etc. O principal
garanhão de desporto desta casa tem sido o inestimável Faust Biarritz,
que conta na sua origem com México e Nankin (pais de vários olímpicos),
Furioso (11 filhos olímpicos), Ibrahim (pai de Almée, Cor de Chasse, etc),
Uriel (muitos anos pai do maior numero de ganhadores em França), etc.
Os garanhões que escolhi para o Puro Sangue Árabe têm nas suas origens os
fabulosos Messaoud, Scanderich, Barquillo, Bagdad, Wan Dick e Skowronek (o “Cavalo
do Século”), aos quais se juntaram recentemente os sangues do Campeão do
Mundo Comet, do Campeão Jacyo, etc. O principal garanhão até aqui utilizado
foi o Campeão Diniz Met Biarritz, filho de Badr Bedour (principal
garanhão da Polónia de 1962 a 1967) e de Qkyjahlla Ibn Biarritz (neta do
Campeão dos Campeões de todas as raças no México). O avô do Diniz é o
líder mundial Comet.
Este ano as árabes vão ser beneficiadas por um filho do Diniz, o belíssimo 4
anos Sahara Din Biarritz, filho de uma das minhas melhores éguas, a Campeã
Araby Ibn Biarritz.
Quais
as disciplinas equestres em que estes cavalos têm demonstrado maior aptidão ?
Felizmente temos produzido animais de grande relevo em todas as
disciplinas equestres olímpicas, e até em corridas, como o demonstram
inequivocamente os resultados.
Apesar destes cavalos estarem eminentemente destinados ao desporto, a
sua versatilidade permite pensar em outras áreas como a tauromaquia?
A experiência tem mostrado que um cavalo mau é mau em tudo, e que um
cavalo bom é bom em quase tudo. Para responder com maior objectividade, penso
que um cavalo com as características dos meus, seja óptimo carácter, fino,
corajoso e elástico, pode ser estrela tauromáquica. Brevemente os filhos do
Diniz Met Biarritz, agora garanhão na Fonte Boa, vão seguramente provar que
não me engano. Ele mesmo tinha uma grande aptidão natural para tourear, além
de ter sido Campeão de Ensino em quase todos os níveis e várias vezes
Campeão de Portugal em Modelo e Andamentos.
Qual
o efectivo que possui actualmente ?
Há muitos anos que tenho sensivelmente o mesmo número de animais. Entre 50 e
60. 85% são da raça Sela Francês
ou Português de Desporto (são idênticas) e 15% Puro Sangue Árabe, que pela
sua grande qualidade são, como escreveu Fernando Sommer d’Andrade, um “património
nacional que é indispensável conservar”.
Projectos
e objectivos, em termos de futuro, da Coudelaria ?
Melhorar, melhorar sempre mais, tendo como objectivo fazer cavalos para as
grandes provas internacionais, em que evidentemente incluo os Jogos Olímpicos.
Para tanto, penso utilizar bastante sémen congelado das grandes vedetas
mundiais.
No que respeita a competição, os cavalos actualmente montados pelo meu filho
Manuel (eu deixei de montar em provas), têm como principais objectivos os Campeonato de Europa de Concurso Completo em 2001 e este ano o CCI três
estrelas de Pau (França), bem como uma final dos cavalos de 5 anos em
Inglaterra, para os quais já temos uma poldra qualificada.
A sua Coudelaria esteve muitos anos
estacionada em Biarritz (França). Há diferenças entre ser criador de cavalos
em Portugal e em França ?
A minha resposta seria muito mais curta se me perguntasse quais eram as
similitudes !
Tudo começa nos primeiros anos de vida do poldro, que em Portugal vai encontrar
pastagens, fenos e cereais pouco ricos, contrariamente ao que se passa na
Alemanha, França, Grã Bretanha, etc. Aquela diferença de alimentação tem
uma enorme influência na precocidade do futuro cavalo, mesmo se o vitaminarmos
copiosamente e o alimentarmos com aveia “ à discrição”, como faço em
Portugal. Verifiquei pessoalmente o que afirmo: na minha Coudelaria os filhos
das mesmas éguas e garanhões têm um desenvolvimento muito mais rápido se
viverem em França. Calculo que um cavalo de 4 anos criado em França
corresponde fisicamente a um cavalo nascido em terras portuguesas com 8 ou 9
meses mais. Aos 5 anos esta diferença atenua-se e situa-se aproximadamente em 4
ou 5 meses. Aos 6 anos a diferença já é imperceptível. Repare que falei de
precocidade e não de qualidade, o que é perfeitamente diferente.
A outra diferença de ser criador em Portugal está na falta de
ajudas do Estado, que noutros países encontra muitas e variadas formas de
auxiliar e subsidiar os criadores, protegendo assim a produção e a economia
nacional.
Quer
aprofundar a sua ideia ?
O Estado Português não só não dá qualquer subsídio aos criadores, como
não aproveita as ajudas comunitárias oferecidas a todos os países membros
para as “raças autóctones ameaçadas de extinção”. Estas, segundo a
definição da Comissão das Comunidades Europeias, correspondem a todas as
raças originárias do País de origem e que tenham uma organização controlada
(Stud-book ou Livro de Registo), não podendo o efectivo de fêmeas reprodutoras
ser superior a 3000. Em Portugal só o Lusitano, o Garrano e o Sorraia têm este
subsídio, tendo inexplicavelmente sido esquecidos o Português de Desporto, o
Anglo Luso, etc. A título de comparação, já em 1994 a Espanha tinha obtido
aquela ajuda para 10 raças autóctones “ameaçadas de extinção”, a
Alemanha para 13, a França para 20, a Itália para 22, etc. Julgo portanto que,
com um pequeno esforço, o Estado Português poderá obter estas e
outras ajudas comunitárias, se se der ao trabalho de as pedir (note que,
por exemplo, a raça Cavalo Belga de Desporto tem ajuda comunitária e é
rigorosamente idêntica à do Cavalo Português de Desporto).
Também em Portugal quase que se protege a importação de animais de desporto,
com imenso prejuízo para a criação nacional. Tanto mais que uma grande
percentagem desses animais estrangeiros não podem pretender a futuros
reprodutores que melhorem uma raça, ou por serem castrados ou por fazerem parte
do refugo.
Tente ir fazer provas nacionais francesas com um cavalo nascido em Portugal e
verá todas as dificuldades burocráticas que vão surgir, sem que as regras
impostas pela CEE sejam contrariadas ...
Assim, julgo que para fomentar e ajudar a criação cavalar nacional é
fundamental:
- favorecer as raças autóctones como o Anglo-luso e o Português de Desporto,
por exemplo através das ajudas comunitárias previstas mas por nós até agora
inexplicavelmente desperdiçadas;
- favorecer os animais nascidos em Portugal através de « prémios-subsídios »
específicos oferecidos aos cavaleiros e aos criadores, como tão bem fazem
outros países europeus;
- dificultar um pouco as importações de cavalos para desporto, excepto de
reprodutores de classe reconhecida;
- beneficiar financeiramente e aumentar o número de provas reservadas aos
cavalos de 4 e 5 anos nascidos em Portugal, permitindo mostrar, valorizar e
estimular a criação nacional.
Uma das provas mais importantes para os criadores deveriam ser os Critérios
Nacionais para cavalos de 4, 5 e 6 anos. Sei que defende algumas alterações à
forma como se disputam.
Então
qual seria a sua proposta ?
Aos 4 e aos 5 anos os cavalos nascidos em Portugal não podem competir com
animais importados, muito mais desenvolvidos fisicamente por razões de habitat.
Aos 6 anos já podem e até devem. Assim, as provas para os poldros de 4 e 5
anos deveriam ser reservados aos cavalos nascidos em Portugal. Como a
regulamentação europeia parece falar especificamente de “critérios”
abertos a cavalos de todos os países, poderíamos contornar a dificuldade
organizando “Campeonatos para Cavalos Nascidos em Portugal”, o que ninguém
nos pode impedir de fazer. Há sempre solução se houver vontade. Pessoalmente
já várias vezes propus aos responsáveis soluções que me parecem válidas.
O
fundamental é que o Estado proteja os produtos nacionais, a economia nacional e
os cidadãos portugueses, estimulando a criação dos cavalos nascidos em
Portugal.
A inseminação artificial é um tema que tem suscitado alguma controvérsia.
Qual é a sua opinião sobre esta matéria ?
Parece-me evidente que a maneira mais rápida de melhorar o efectivo
nacional passa pela utilização da inseminação artificial.
Importar sémen dos melhores padriadores internacionais e cedê-lo aos criadores
em boas e determinadas condições (égua testada e inseminada num centro
especializado), parece-me mais uma excelente e necessária maneira do Estado
poder ajudar os criadores a melhorarem o seu efectivo.
Já há vários anos que de tempos a tempos recorro ao sémen congelado para
obter uma origem que dificilmente conseguiria de outra forma.
A Associação Portuguesa de Criadores de Raças Selectas é uma instituição
secular que num passado recente teve um papel importante na organização dos
criadores, contudo, nos últimos anos tem vindo a perder algum protagonismo. Que
medidas deviam ser implementadas para uma revitalização da APCRS ?
Todas as instituições seculares atravessam períodos mais ou menos felizes. É
verdade que a APCRS perdeu algum protagonismo, com a saída do Lusitano e do PSI.
Eu próprio, que faço parte do Conselho Geral da Associação por ser
Presidente do Stud Book PSA, tenho manifestado a minha preocupação à
Direcção. Julgo que, a curto prazo, importantes modificações terão lugar.
Mas
que medidas lhe parecem deveriam ser implementadas ?
É um assunto da responsabilidade da nova Direcção. Pessoalmente,
julgo que seria extremamente útil transformar aquela Associação numa Federação
ou Confederação de Associações. A
pedido da Assembleia Geral até já preparei um rascunho do que poderiam ser os
estatutos. A futura Federação continuaria, com maior justificação a gerir os
livros genealógicos, conseguiria com muito mais facilidade maiores e necessários
subsídios, poderia defender, representar e ajudar de maneira mais eficaz os
criadores, teria competência para incentivar, patrocinar e regulamentar a prática
de provas de Modelo e Andamentos e de provas desportivas para cavalos de 4 e 5
anos, e teria a possibilidade de celebrar acordos com entidades públicas e
privadas, nacionais e internacionais.
Para quem é criador de cavalos de desporto, um dos grandes mercados é
sem duvidas o das corridas de galope. Como vê o constante adiamento destas
provas em Portugal, e que benefícios resultariam para a economia nacional do
surgimento das corridas com apostas ?
Toda
a economia nacional, todos os portugueses e todos os criadores ganhariam com a
implementação das corridas de cavalos com aposta mútua a nível nacional.
A aposta mútua pode ser um enorme rendimento para o Estado (é uma das
maiores receitas de França), além de criar uma imensidade de postos de
trabalho e de indústrias afins.
Não estando no gabinete dos Senhores Ministros, não compreendo a
aparente falta de interesse para um assunto tão importante para a economia
portuguesa e que por isso certamente não está condicionado por qualquer
interesse privado.
Que medidas preconiza para a comercialização do Português de Desporto,
tanto para o mercado nacional como internacional ?
Há muitos e muitos cavalos nascidos em Portugal que são
indiscutivelmente muito superiores a alguns importados que, erradamente, fazem a
vaidade dos seus proprietários ...
É
necessário apagar a ideia errada de que todos os importados são bons e que só
eles são competitivos, fazendo saber que no seu país de origem muitos daqueles
animais teriam acabado como montadas de uma escola de equitação, ou mesmo no
talho...
A comercialização no mercado nacional dos cavalos vocacionados para o desporto
também está intimamente ligada ao interesse do Estado em favorecer a criação
cavalar portuguesa, favorecendo provas desportivas para os animais nascidos em
Portugal, ajudando economicamente os criadores e dificultando a entrada de
animais estrangeiros que não venham melhorar as raças nacionais.
Quanto à comercialização internacional, a solução é menos fácil. Os
estrangeiros compram quando vêem os cavalos em acção. Temos portanto de os
mostrar naquilo para que forem mais aptos. Há uma disciplina para a qual o
cavalo de desporto criado em Portugal tem em geral grande aptidão. É a do
Concurso Completo, que por isso deveria ser muito acarinhada por todos os
responsáveis e em particular pela FEP, até porque julgo ser nela que os
cavaleiros portugueses têm maiores hipóteses a nível internacional.
Privou com algumas figuras nacionais e internacionais do meio equestre e
tauromáquico. Quais as três que mais o marcaram e que constituem as suas
grandes referências como cavaleiro e criador ?
Fernando Sommer d’Andrade pela sua frontalidade, sincera amizade, experiência
hípica e maneira de ser, empreendedora e “brutalmente” honesta, não tendo
ciúmes dos que têm ideias; João Branco Núncio pela sua nobreza e arte a
tourear; Nuno Oliveira pela sua intuição, pela sua finura e pelo seu “sentimento”
com os cavalos.
Algumas realizações inovadoras foram da sua responsabilidade, como a
festa de homenagem a Fernando Sommer d’Andrade, os Leilões de Cavalos na
Sociedade Hípica Portuguesa, a primeira corrida de toiros à portuguesa em
França, etc. Para quando uma nova iniciativa e de que género ?
Em Portugal, tomar iniciativas de algum relevo não me parece ser a
melhor maneira de arranjar amigos, mas como fui o primeiro Presidente da “European
Arab Horse Sport Commission” estou a pensar realizar fins de 2001 (ou em
2002), uma grande manifestação internacional dedicada ao mais nobre dos
equídeos, o Cavalo Árabe. Dela fariam parte um raide internacional de 1000 Km
com partidas de vários países, bem como um CCE que poderia ter lugar por
exemplo nas magníficas instalações de Alter.
Já que falou na Coudelaria de Alter diga-nos qual é a sua opinião
sobre os investimentos realizados ?
É uma obra em que o Estado soube aproveitar bem as ajudas comunitárias
para zonas desfavorecidas. E penso que dos milhões de contos gastos resultou
uma obra que nos dignifica, tanto mais que realizada numa Coudelaria com um
passado histórico raro.
Resta agora rentabilizar, internacionalizar e aproveitar o investimento feito
tornando-o também num pólo de atracção turística. Já há uns 2 anos que
lembrei aos responsáveis que o local é ideal para organizar um Concurso
Completo Internacional de grande nível. E será relativamente fácil pôr em
prática o que proponho, logo que os acessos forem o que devem ser. Só a
título de informação lembro que o CCI de Badmington, em Inglaterra, leva ao
local uns 400.000 espectadores !"

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